Perversões mentais doentias


Uma recente experiência

           Minhas leituras e pensamentos ultimamente estavam voltados à compreensão das várias nuances do meu espírito. Eu me sentia confusa por estar vindo tudo de vez de uma forma que eu nunca havia sentido. Antes eu experimentava o mundo espiritual como uma força ambígua, porém, sempre me trouxe, acima de tudo, leveza. Nos últimos dias eu estava vivendo o peso. Pedi para que surgisse um contato maior, com pessoas que pudessem me transmitir a força de seus ancestrais e da natureza. Pedi que eu voltasse a tomar ayahuasca, mas pedi, acima de tudo, que fluísse, que eu não precisasse procurar, pedi para que tudo isso viesse até mim. E veio.

 

      Domingo durante o dia fui fazer fotos e vídeo com um amigo para um trabalho lindo que está sendo iniciado com índios do Acre e que será ampliado para índios de todo o Brasil. O projeto da Associação Casa do Estudante Indígena envolve educação e formação para os índios que possam contribuir com seus conhecimentos para o bom funcionamento de suas aldeias. Tive a felicidade de conhecer três grandes lideranças indígenas; Shanerú representando o povo Yawanawá (que significa “queixada”); Harú dos Kontanawá (“povo das estrelas”) e Leopardo da etnia Kaxinawa (“morcego”).

 

       Quando eu e meu amigo chegamos ao local, fazia um dia lindo de sol. Os índios estavam embaixo de uma arvore fazendo rituais de pintura para se apresentarem algumas horas depois na Aldeia de Carapicuíba. Fiquei fascinada desde o primeiro contato e, mesmo na correria, pude sentir a vibração de seus cânticos e como aquilo reverberou bem nas pessoas que os assistiram. Acabado o trabalho, fomos à casa de uma das pessoas que estavam lá para fazer o ritual.

 

       Chegamos na casa que era maravilhosa, me senti como se estivesse no meio da floresta, o céu estava muito estrelado, a lua estava minguando e eu conseguia sentir o cheiro forte da vegetação. Respirei melhor. Enquanto os índios não chegavam, ficamos em volta de uma fogueira os esperando. Havia umas quinze pessoas lá e todos alimentavam a fogueira, catando lenha nas proximidades dela. Eu estava muito ansiosa, havia quatro anos que eu não tomava o chá e minha última experiência havia sido muito forte. Na verdade, estava com medo de ver coisas que me fizessem passar mal e que me fugissem o controle. Não o controle racional, mas o controle do meu próprio espírito diante de forças estranhas que se fizeram presentes da última vez. O medo e a ansiedade repercutiram no meu corpo e eu não parava de ter vontade de urinar. Fui ao banheiro cerca de dez vezes seguidas, não queria sentir vontade de fazer xixi na hora das mirações, pois lembro que foi assim que passei muito mal. Há quatro anos, no ritual de ayahuasca, eu já estava fora do plano prático, quando senti muita vontade de urinar, me levantei da roda e fui ao banheiro sozinha. Eu mal conseguia sentir meu corpo e foi muito difícil conseguir tirar a roupa e sentar na privada. Quando, finalmente, consegui fazer xixi eu olhei para a parede de azulejos e vi uma série de esfinges e Cleópatras em série, seguido da visão de milhares de gueixas. Isso tudo envolto em teias e com besouros multicoloridos. Eu fiquei muito impressionada e comecei a ter medo. Levantei, me vesti com dificuldade e fui até a pia lavar as mãos. Quando me olhei no espelho foi um dos piores momentos. Me vi derretendo na minha frente e aquilo desencadeou uma série de outras visões muito dolorosas para o meu espírito.

 

      Apesar da minha ansiedade, eu estava muito feliz em estar ali, aquelas pessoas todas tinham um brilho próprio que pude sentir mesmo naquelas que eu não me cheguei a conversar. Os índios demoraram quase quatro horas para chegar e esse foi o tempo ideal para eu me sentir segura e esquecer o medo que, na verdade, eu não sentia. Meu espírito estava muito pronto para aquilo e, quando me dei conta disso, minha força se restabeleceu e eu pude me sentir plena novamente.

 

           Sentada na grama, eu admirava aquelas figuras tão simbólicas para mim. Seus olhos carregavam a sabedoria e a dor de povos marcados por massacres e perdas, mas, muito mais que isso, eles me passavam uma força e conhecimento de seres humanos que sabiam que eram parte da natureza e usufruíam disso da forma mais verdadeira possível. Eu olhava maravilhada para os seus cocás e colares de sementes, esses elementos naturais que eles traziam adornando seus corpos revelavam sua ligação inevitável com a floresta e o respeito que mantinham por ela.

 

             Eu esperava curiosa pelo inicio do “trabalho”. O “Ni”, como eles chamam o chá, foi servido um a um. Primeiro, uma das pessoas do grupo colocava o chá em um pequeno copo, em seguida, Leo pegava o copo, olhava fixamente para ele e emitia sons parecidos com sopros. Em seguida, ele passava o copo para Shanerú que falava algumas palavras em sua língua e fazia o mesmo som, logo depois, ele passou o copo para Harú que “soprava” no mesmo algumas vezes e finalmente o passava para a pessoa que ia tomar. O ritual foi repetido cerca de vinte vezes que era, mais ou menos, o número de pessoas que estavam lá. Os índios repetiram isso da primeira a ultima pessoa com a mesma concentração. Depois que todos tomaram, eles fizeram o próprio ritual e tomaram o “vinho sagrado”.

 

             Todos nós sentamos novamente em forma de círculo, em volta da fogueira. Era uma noite fria e muitos estavam envoltos em cobertores e mantas. A gente permaneceu em silêncio para concentrar as energias. Meu amigo dizia já sentir alguma coisa, eu também já sentia, mas nada parecido com as minhas primeiras sensações no trabalho de quatro anos atrás. Estava muito brando e eu não “via” imagens extra físicas, apenas a energia que nos circundava. Era como se eu pudesse enxergar o ar. Tudo surgia com pontos brilhantes que realçavam a textura das imagens. As portas estavam abertas, as forças já se faziam presentes. Falei ao meu amigo que nós deveríamos olhar para o fogo e nos concentrar porque aquele era o momento que conseguiríamos ver a real velocidade das coisas. O silencio já havia sido interrompido pelos cânticos dos índios, que ganhavam mais força com o passar do tempo. Eles cantavam em sua língua, mas eu conseguia sentir do que se tratava. Nesse intervalo, alguns de nós havíamos deitado, outros permaneciam sentados, parecia que estávamos sem energia física, prontos para ver e sentir todas as forças que estavam vindo. Foi quando Shanerú se levantou e pediu para que nos levantássemos também. Foi um momento abslotumanente mágico, a sintonia em que estávamos era inacreditável. Seguimos as instruções dele e demos as mãos e formamos um circulo em volta da fogueira. Batíamos os dois pés na terra e dançávamos o Marirí. Aquilo me trouxe uma felicidade imensa, as pessoas sorriam leves. Shanerú cantava e nós os seguíamos em seus cânticos poderosos. Depois da dança, tornamos a nos sentar, alguns permaneceram em pé. Harú nos perguntou se a gente queria tomar mais um pouco do chá, a maioria tomou novamente e foram feitos os mesmo rituais da primeira vez. Eu também repeti, e me sentei novamente. Sentia as partículas de infinito dentro de mim e me concentrei para me entregar. Os cânticos me tocavam cada vez mais fortes, eu observava os três pajés que mantinham uma sintonia com tudo e todos fascinante. Cada palavra que cantavam reverberava no mato e em mim de uma forma inexplicável, eu podia sentir tudo através deles.

 

            Comecei a sentir o meu corpo amolecer, tive que fazer certo esforço para manter a cabeça firme. Sentei com as pernas dobradas pra frente e as mãos por baixo dos joelhos. A luz da fogueira estava mais baixa e eu conseguia ver os rostos que estavam mais próximos dela, inclusive os dos pajés, que concentravam partículas luminosas. Leo começara a ler algumas canções com a ajuda de uma lanterna. Eu olhava para seu rosto pouco iluminado e parecia ver seus ancestrais dentro dele, como se o auxiliassem a cantar. Olhei para a fogueira e a terra embaixo dela parecia respirar, contraindo e expandindo. Meu corpo estava cada vez mais relaxado e eu senti uma necessidade imensa de deitar, porém eu continuava sentada inerte, até que consegui me mover e deitei na grama com a cabeça em cima do meu braço. Eu podia sentir todas as presenças não físicas e aquilo me dava uma mistura de maravilhamento e sofrimento ao mesmo tempo. Não dava para racionalizar nada, era tudo ao mesmo tempo, minha mente estava vazia, eu era apenas espírito. Senti um peso que, ao mesmo tempo, me trazia leveza, mas era difícil de superar. Harú começou a cantar de uma forma inacreditável, a voz que saia do seu corpo não era apenas dele, ela emitia sons da natureza e reverberava de uma forma que acredito não ser humana. Olhei para o meu amigo que estava deitado perto de mim, resolvi me sentar. Ele sentou em seguida e ficamos nos olhando, eu disse que precisava fazer xixi, mas que não queria ir naquele momento, ele disse que iria comigo. Esperei mais um pouco e me senti segura para encarar a minha imagem novamente. Enquanto isso, Harú havia perguntado novamente se alguém queria tomar mais ni, pois essa seria a última sessão. Eu resolvi não repetir, já me sentia dentro de tudo o suficiente. O meu amigo tomou mais uma vez e, algum tempo depois, foi comigo até a casa e eu fui ao banheiro. Ao entrar olhei de relance para o espelho. Já estava fácil me movimentar e consegui fazer tudo normalmente. Fui lavar as mãos e me olhei no espelho, minha imagem era quase a mesma, mas eu enxerguei os meus olhos maiores e me aproximei. Eu conseguia perceber cada movimento mínimo da minha face, meus olhos estavam maiores e eu sentia como se pudesse ver as coisas de fato. Enfrentar esse medo me deixou ainda mais forte e saí do banheiro me sentindo muito bem. Meu amigo me esperava do lado de fora da casa fumando um cigarro. Nós ficamos na varanda fumando e observando aranhas que andavam por suas teias imensas. Elas eram brilhantes e a gente conseguia entender o que elas comunicavam. Olhamos para a vegetação exuberante da Mata Atlântica e elas pareciam estar na mesma freqüência que as aranhas e nós mesmos. Eu gritei: “Deleuze, viva Deleuze!”, me referindo a rizoma e a sensação plena, mais uma vez, de que somos uma coisa só. Ele me contou que quando olhou para mim no “terreiro” viu a metade do meu rosto iluminada e eu tinha olhos de índia. Eu ouvi o cântico dos índios e dessa vez, eles tocavam violão, disse a ele que precisávamos voltar e assim o fizemos.

 

       A luz parecia ter aumentado no lugar, Shanerú cantava músicas muito bonitas e eu senti muita alegria. Levantei, fumei, dancei, a sensação era de realização, intensidade e suavidade ao mesmo tempo. O yawanawá perguntou se a força já tinha baixado, se as pessoas se sentiam bem. Eu já não estava mais tão envolvida pelos espíritos da natureza ali presentes, mas as pessoas que tomaram pela terceira vez ainda sentiam muito forte. Shanerú continuou a cantar canções belíssimas de seu povo e algumas que ele mesmo fez. Verdadeiros artistas, feiticeiros, guerreiros aqueles índios. Eles, a natureza e nós mesmos conseguimos transformar aquele lugar em pura luz e amor. Eu ficava admirada com a beleza de tudo aquilo e só conseguia sorrir. O sorriso mais verdadeiro, aquele que vem de dentro, uma harmonia intensa entre você e a essência de tudo. E assim permaneço.     



Escrito por Rafaela Uchoa às 20h51
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