Perversões mentais doentias


A sinestesia do amor

 

   O cheiro de esmalte a entorpecia. O loiro dos cabelos dela brilhava naquele quarto de janelas fechadas. Suas bochechas ficavam mais rosadas com o calor daquela tarde de verão. Ela acompanhava sua leveza ao limpar os excessos de vermelho nas bordas das unhas. Acendeu um cigarro e continuou admirando a beleza aparentemente inocente de Maria. Aqueles olhos apertadinhos, tão angelicais, passavam uma força e segurança que envolvia Lara por inteiro. Ela fechava os olhos, desenhava Maria em sua frente e quando os abria ela estava exatamente do jeito que imaginou. Abre as janelas, quero fumar. Lara pensou que ela borraria suas unhas, mas não atreveu-se a falar nada, Maria sempre sabia o que fazer na hora certa e se não fosse a hora certa sabia como fazer para que fosse. Ela levantou-se da cama de lençóis vermelhos e almofadas verdes e abriu a janela para que sua bela Maria pudesse fumar. Seus movimentos eram tão leves, puxava o cigarro do maço sem nenhuma pressa de fumá-lo, sabia apreciar cada instante, do mais fútil ao mais intenso. Lara não acreditava que tal perfeição pudesse existir. E, de fato, não poderia.

 

      Maria deu o último trago no cigarro e apagou-o no cinzeiro. Aproximou-se lentamente de Lara que estava encostada em uma das almofadas verdes, completando a contradição de cores tão bela que era a junção da almofada com os seus cabelos rubros naturais. Maria ficou por cima dela, olhando fixamente em seus olhos verdes. Lara ficava tonta só de sentir seu cheiro de colônia fresca que, na verdade, lhe era natural. Maria esfregava devagar seu sexo contra o de Lara, sentia-o umedecer abundantemente. Ela encostou os dedos por cima da calcinha dela, apertou devagar. Lara fechou os olhos, sorriu. “Ela vai acabar borrando as unhas”, pensou. Maria estava toda arrepiada, ficava excitada só de ver a devoção de Lara por qualquer suspiro seu. Sabia o quanto era bonita. Sabia o quanto era conhecedora de quase tudo. Sabia que era poderosa. Mas não se fazia superior. Sempre soube que faltava algo em si que só poderia achar nas outras pessoas, assim como todos nós. Maria mordiscava a orelha de Lara devagar, na medida em que acariciava seus seios por dentro do sutiã. Lara passava as unhas pelas costas de Maria que gemia baixinho em seu ouvido. Ela já estava explodindo de tesão, apertou Maria contra si e subiu nela. Arrancou sua calcinha e mergulhou no meio de suas pernas. Chupava Maria com uma devoção de poucos, fazia-lhe virar os olhos e esticar os pezinhos de prazer. Gozou poucos minutos depois, de forma tão perfeita, que só cabia a ela. Mas seu prazer não era egoísta, precisava que Lara gozasse imediatamente depois e assim o fez vezes seguidas.

 

      Horas depois e exaustas, as duas fumavam um cigarro juntas. Uma ao lado da outra na cama, olhavam para a mesma direção que naquele momento não era física. Concentravam-se cada uma em seu plano, olhando para o mesmo teto branco. Lara serviu-se de uma taça de vinho, estava mergulhada em seus pensamentos. Não pensava em Maria, mas em si mesma. Sentia-se tão mulher, se sentia tão amor e, ao mesmo tempo, tão vazia de si mesma. Resolveu olhar para o lado e, ao contrário do que imaginava, deparou-se com Maria observando-a. Nunca tinha sentido os olhos de Maria tão vivos ao olhá-la. Soube naquele instante que ela a amava mais do que poderia suportar. Mas suportaria. Sentiu vontade de vomitar. Seu estômago fraco ficou afetado com aquela única taça de vinho. Foi ao banheiro. Maria permaneceu na cama. Soube exatamente o que Lara não precisava falar. Sentiu uma lágrima cair em seu rosto. De que valia a sua beleza, se não era amada plenamente? Não queria nada pela metade. Não sentia nada pela metade. Foi até o banheiro. Lara escovava os dentes em frente ao espelho, com olhar fixo em si mesma. Não consigo mais. Ela arregalou os olhos e se engasgou com a pasta. Cuspiu, lavou a boca e olhou para Maria, que não conseguia mais segurar as lágrimas. Me sinto uma fraca chorando assim na sua frente. Lara atirou-se em seus pés e começou a beijá-los. Pára, não quero que chore por algo tolo. Não quero que me venere, quero que me ame! Lara não pôde suportar ouvir tanta dor vindo de seu grande amor, sentiu seu peito apertado. Eu sou uma idiota, não ligue pra isso, é existencialismo demais. Não é, você não tem culpa do que sente. Lara levantou-se, colocou as pontas dos seus dedos trêmulos no rosto de Maria para sentir as suas lágrimas. Você é só o que sinto e esse é o problema. Maria afastou-se de Lara. Não suporto mais, vamos parar por aqui. Eu não consigo viver sem você. Nem eu, mas precisamos aprender. Lara beijou Maria com toda a sua vicissitude, de um jeito que nunca sonhara beijar ninguém. Caíram no chão e amaram-se loucamente. Em meio à gozos e lágrimas. Sabiam que não podiam se separar. Sabiam que precisavam uma da outra o tempo inteiro. Mesmo sem saber muito bem o que era ser individuo. Não precisavam. Isso era racionalizar demais. E, afinal de contas, para que racionalizar o amor? Adormeceram no tapete, nuas e entrelaçadas. Maria continuava linda, mesmo com o esmalte borrado.



Escrito por Rafaela Uchoa às 01h32
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