Perversões mentais doentias


O instante e o inesperado

Alice e sua maquiagem borrada. Havia envelhecido uns dez anos. Alice. Cabelos bagunçados e aqueles olhos cor de mel que pareciam saltar-lhes da face. Eles seduziam da mesma forma que despertavam pena. Vai limpar esse rosto, sua vadia imunda. Vai limpar essa maquiagem preta horrorosa. Alice, és tão bela. Por que te maltratas assim? A vida lhe ensinou tanta coisa que você não consegue absorver mais nada.

Ele admirava as cores do céu, pois vinha de um lugar sem horizonte. Aos poucos se desfazia de suas memórias de glamour de concreto. Agora não é mais um diretor de arte de grandes produções, é simplesmente Gabriel. A mística cidade das pedras parecia fincar suas entranhas na terra. A visão através das montanhas era esplendorosa. Sentia a sua alma encontrando todos os mitos daquele lugar, sentia-se o próprio Chico Taquara. Os objetos de cena eram compostos pelos mais maravilhosos elementos da natureza. Voltava a respirar.

Alice voltava de mais uma transa qualquer com um cliente qualquer. Era tão elegante que ninguém na rua podia chamá-la de puta. Mesmo com seu aparente envelhecimento mantinha uma beleza de poucas. Ainda tinha tudo que se pode achar numa mulher atraente, menos a vicissitude de antes. Seguia andando para casa limpando a maquiagem borrada. Ainda se vestia como se morasse na cidade grande. Pobre, Alice, o que teria acontecido a ela para que ficasse assim? Aqueles olhos grandes gritavam por algo que não se sabia o que era. Não dá mais para ler os olhos de Alice. Eles se trancaram para o mundo.

Gabriel andava lentamente para a pousada. Sorria, sentia o frescor de uma vida leve... Era tudo tão diferente da rotina maçante da massificação urbana. Não tinha pressa em chegar, era noite e sentia a brisa terna tocando o seu rosto. Sorria ao ouvir o barulho discreto dos chinelos batendo no chão. A simplicidade era exatamente o que mais o aproximava do ser. Sentia-se são, estava sendo, ele era Gabriel em toda a sua plenitude, era tão simples se abrir à felicidade... Sentia-se feliz.

Acordou cedo com o canto dos pássaros. Os olhos hesitavam em abrir. Passava os dedos pelo lençol franzindo-o nas pontas. Ao despertar recebia todo o senso de realidade que lhe cabia. Saiu rápido da cama e foi tomar um banho. Colocou o café da manhã na mesa e foi acordar seu filho. O garoto se levantou vagarosamente, era tão leve seu olhar de criança. Deu um beijo na mãe e foi com ela para a cozinha. Os dois fazem a refeição juntos, ela olha para aquele pequeno pedaço de si com uma alegria imensa. Era o motivo para ser forte, era o motivo de tudo aquilo. Era o seu motivo de viver. Levou-o para o banho para que não se atrasasse. Ainda com o canto dos pássaros seguiu com o garoto para a escola.

Os raios solares da manhã deixavam a paisagem ainda mais brilhante. Gabriel seguia andando pelas calçadas antigas em direção ao boteco para tomar seu café. Caminhava lentamente com as mãos no bolso e com uma enorme alegria no peito. Passou em frente a uma escola que chamou sua atenção pela arquitetura antiga. Parou por ali e observou o movimento de crianças e pais entrando. Suspirou...e de repente não acreditou no que viu. Não é possível. Alice saia pelo portão, Gabriel correu em sua direção. Parou em sua frente, Alice ficou atônita. Ele não pôde fazer outra coisa senão abraçá-la. Ela entregou-se àquele carinho intenso. Ficaram abraçados no meio da calçada por minutos, não diziam uma palavra, as lágrimas falavam pelos dois naquele momento. Finalmente Gabriel e Alice se olharam. Ele passou os dedos delicadamente em seu rosto, como se reconhecendo aquela expressão que tanto amou por anos. Ela o olhava nos olhos fixamente se revelando por inteira, sentindo um prazer de viver tão grande que mal lhe cabia no coração. Seus lábios foram de encontro um do outro instantaneamente, eles se pertenciam e tempo nenhum podia fazer isso ser diferente. Suas almas haviam finalmente se reencontrado.

Foram ao boteco que Gabriel estava a caminho. Sete anos se passaram, Alice havia sumido, Gabriel não sabia o motivo. Por que, Alice, por quê? Ela dizia que o amava, que foi obrigada a fazer tudo aquilo, que nunca mais podia voltar. Alice, que marca é esta no seu rosto? O que fizeram com você? Não pôde mentir para o seu amor, contou como estava conseguindo viver e sustentar seu filho. Ele morreu duplamente ao saber que ela estava em tamanha situação de sofrimento e que o filho que ela teve não era seu. Mas nada disso importava. Você vai ficar comigo, eu vou cuidar de você e do seu filho, não há como fugirmos disso, eu te encontrei não foi por acaso. Ela mal podia acreditar nas palavras que ouvia, era o mesmo Gabriel de sempre, artista, sensível e a maior fonte de amor que já conheceu neste mundo. Ela sorriu e apertou forte sua mão. Ele disse que a amava, ela também. Ele foi buscar um café. Apoiou-se no balcão, sentia-se o homem mais feliz do mundo. Sua mente era um turbilhão de pensamentos e sensações, sabia que o acaso não ia lhe deixar sem Alice, um dia tinham de se encontrar. E tinha de ser nessa terra tão bonita e misteriosa. Era o poder dos deuses e mitos que pairavam por ali, era o poder dele e dela que não podiam ficar sem o outro, era o poder do amor. Pediu dois cafés com leite, o velhinho dono do bar foi preparar. Gabriel via-se absorto em magia, quando de repente ouviu duas mulheres gritando do lado de fora.

Socorro, a moça está tendo um troço!

Gabriel correu desesperadamente em sua direção, Alice ofegava. Estava com os olhos estatelados e seu rosto parecia desfigurar-se aos poucos. Ele ficou desesperado. Chamem um médico! Pelo amor de deus! Um médico! Ela perdia lentamente os sinais vitais, não via mais nada. A ambulância chegou minutos depois, inútil, Alice estava morta. O aneurisma que tinha no cérebro finalmente se rompeu, junto com todos os seus sonhos de uma nova vida. Gabriel não teve tempo nem de saber o nome do seu filho.


Escrito por Rafaela Uchoa às 02h53
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